
Só não era uma cidade frenética mas, ainda assim era uma cidade.
37% da populução fumava mas, para ele não importavam as estatísticas, nem ao menos pelo fato de estar prestes a virar uma.
Desde criança jogado na rua, cresceu em meio a realidade sendo parte do percentual de crianças abandonadas.
Orgulho não existe quando a palavra chave é sobrevivência, o que é uma pessoa sem orgulho?
Poderia ser alguém para alguma pessoa, poderia ser alguém, era um vagante, se é que isso é ser alguém.
Catava latas, catava tapas, tampas e restos.
Catava sonhos deixados pelas ruas, os sonhos sem dono.
Os pesadelos.
Era um coadjuvante, poucas vezes notado, era um enfeite feio que se perdia em meio a paisagem urbana.
Até que um dia sem querer o automóvel passou por cima.
E a cidade que não era frenética, bem, essa ainda era uma cidade.
Os sonhos, os papéis, os papelões espalhados entre a rua e a calçada, calçando o fato sustentado ali.
Ele não tinha um nome, mas tinha um sonho que sobrevivera a todo aquele pesadelo.
Ele não era ninguém, agora era de fato uma estatística.
-Eu tinha que retratar aquilo que via, e confessar que assim como eles, assim como todos eles, também fingia não ver.
Afinal quem se importa?
Não sei bem se tinha sonhos, ou se sabia o que era sonhar, mas como ninguém chegava perto tive medo de me aproximar também, era um olhar tão vago, tão opaco, que não chegava a ser sombrio, chegava a ser triste. Mas essa tristeza de imensidão tão grande a qual eu nunca experimentei, alias qualquer tristeza minha perto da dele seria felicidade.
Isso me fazia culpada.
Culpada por ter em minha volta pessoas menos felizes que eu.
E eu não fiz nada.
Nem você.
Nenhum comentário:
Postar um comentário